09 nov

Quando olho no espelho

Por alguns anos eu ouvi calada a frase “Estou aqui porque eu sei que eu DEVO emagrecer”, acatando o desejo dos meus clientes e ajudando-os a conquistar o que eles buscavam. Eles nem desconfiavam que dentro de mim mil perguntas e contestações borbulhavam. Mas no começo, talvez por medo de ser julgada e falta de segurança profissional, guardei minhas inquietações num cantinho escondido dentro de mim. Até perceber que exatamente estas inquietações é que iriam lapidar a minha identidade profissional e o jeito único de expressar quem eu sou através do meu trabalho.

 Meu nome é Júlia, tenho 30 anos e achei minha forma de ser útil ao mundo através da nutrição. Meu trabalho é ajudar pessoas a se sentirem seguras e empoderadas, a ter uma relação mais saudável com a comida e a construir uma imagem corporal positiva e confortável para si mesmas. Posso dizer que 90% das pessoas que me procuram chegam até mim com o desejo de emagrecer, seja por recomendação médica, medo de ficar doente, pressão de algum familiar ou simplesmente porque acham que devem emagrecer. Confesso que nunca gostei muito da palavra DEVO. Ela me lembra de mais uma daquelas obrigações chatas da vida que por convenção social, precisamos cumprir.

“Em que momento nutricionistas deixaram de ser profissionais de saúde para ser escultores de corpos ou emagrecedores de gente?”

“Desde quando começamos a ter medo de comer?”

“Quando foi que permitimos que nos dissessem que para sermos saudáveis, felizes, amadas e bem sucedidas precisaríamos ser muito magras (só magra não é mais suficiente)?”.

Estes eram alguns dos questionamentos que fervilhavam dentro de mim…

Vivemos numa sociedade cheia de padrões e convenções a serem cumpridas, mas arrisco dizer que a ditadura da beleza e da magreza tem ganhado proporções assustadoras. Você vale o quanto você pesa, o que é uma grande injustiça! Criamos um pavor tão grande da obesidade e buscamos uma vida impecavelmente saudável que não percebemos que estamos caminhando para uma estrada perigosa, da relação disfuncional com a comida e com os nossos corpos, e dos transtornos alimentares.

Hoje, quando atendo mulheres saudáveis que chegam até mim com o desejo de serem ainda mais magras não deixo que elas saiam do consultório sem responderem algumas perguntas:

Por que você quer emagrecer, quais são as suas reais motivações?

O que vai mudar na sua vida, de maneira prática, quando você conseguir perder os 3 ou 4 kg que você tanto quer?

Que pessoa você vai se tornar quando conseguir?

Adoro ver a expressão no rosto delas. Uma mistura de surpresa, reflexão e comoção. Quando isso acontece, nem que seja por alguns minutos, elas deixam de seguir a boiada, de ser aquele ratinho de laboratório que corre a vida inteira numa roda, de ser aquela pessoa que leva uma vida inteira de dietas, se privando de momentos importantes, se culpando, se punindo a cada momento que tenta entrar num manequim que claramente não é o dela.

 Meu coração encheu de alegria quando escutei:

 “Eu não sei te responder. Talvez você tenha razão, minha vida vai ser a mesma quando eu estiver 3 kg mais magra,. Talvez eu não precise mesmo, talvez eu perdi tempo de vida fazendo dietas sem sentido este tempo todo…”.

Para alguns talvez possa parecer uma péssima estratégia de marketing fazer as pessoas pensarem sobre emagrecimento. Não penso assim. Eu sinto que quando faço as mulheres se questionarem estou dando asas, devolvendo poder para que elas decidam o que querem ser, que corpos querem ter. Incentivo que tenham uma alimentação e estilo de vida saudável, e deixo que elas decidam que peso querem ter e sinto que isso faz com que elas confiem mais em mim. Acho esta discussão tão importante que senti necessidade de trazer para fora do consultório e criei nas minhas redes sociais uma série de entrevistas chamada “#QUANDOOLHONOESPELHO”. Convidei mulheres que conheço e admiro para falar sobre imagem corporal, beleza, empoderamento e aceitação.  Tem sido emocionante! Compartilho um destes depoimentos e me despeço com o desejo de que sejamos cada dia mais livres de todos os padrões. Não há nada de errado em querer emagrecer ou em mudar qualquer coisa no nosso corpo, mas antes de tudo, que a gente tenha clareza desta busca, que a gente não se permita ser marionete de uma sociedade opressora. Que a gente tenha voz própria. Isto é poder! Que sejamos livres e lindas do jeito que quisermos ser!

“Às vezes quando olho no espelho vejo uma mulher muito bonita, determinada, batalhadora, que enfrenta os desafios e está disposta a ir atrás daquilo que sonha. Outros dias me vejo cansada e fora dos padrões. Tudo tem a ver com a energia do meu dia. Hoje tô vivendo um momento muito feliz com a minha família e me realizando profissionalmente. Mas esta felicidade e aceitação não é constante, tudo depende do meu humor. Me sinto pressionada a mudar algo no meu corpo constantemente. Mesmo que a gente tente ser uma pessoa livre e questione os padrões, às vezes me pego pensando: ‘Não vou vestir esta roupa porque não fica bem no meu corpo’ ou ‘Preciso emagrecer’ ou ‘Meu cabelo não tá legal, tem fios brancos’. A cobrança sobre o corpo da mulher é muito antiga, mas os questionamentos são bem recentes. A gente tem ainda muito a evoluir no nosso próprio empoderamento como mulher. Eu luto contra essa cobrança da sociedade e contra a cobrança comigo mesma, mas ela é difícil. Vejo olhares e ouço comentários: ‘Se você emagrecesse estaria mais bonita’. Poxa mas será que tudo que eu tenho e todas as coisas boas que eu sou não compensam aquilo que você vê?! Uma qualidade que admiro em mim é o quanto eu sou amorosa. EU AMO A VIDA. Apesar de ter sofrimento e desilusões, eu gosto da pessoa que me tornei e da vida que eu levo. O prazer em viver e o amor que eu tenho pelas coisas e pelas pessoas é o que eu mais gosto em mim. Me sinto muito poderosa quando sonho com alguma coisa e consigo chegar lá. Quando me imagino com uma roupa e me acho bonita. Eu diria às mulheres para buscar sempre a autenticidade. A gente tem várias ditaduras: da beleza, da amamentação, do parto normal, do status financeiro. Mas…O que a gente quer? Aonde a gente quer chegar? Corra atrás disso, destes sonhos. Se você quer ser mãe, seja. Se você quer ser uma executiva, corra atrás disso. Se você está bem consigo mesma, viva assim.” ⠀

Este foi o depoimento da Lírio*. Ela não quis expor o seu rosto. Lírio é a flor que ela mais gosta.

Para acompanhar a série de entrevistas, siga nas redes sociais:

Instagram e Facebook: @quandoolhonoespelho

Share this

Leave a reply