21 set

Como achar um exercício físico que você goste?

Praticar exercícios é uma necessidade, todos nós sabemos disso. Porque não precisa ser nenhum especialista para saber que caminhar, correr, pedalar, fazer musculação ou qualquer que seja a atividade de que você escolha é fundamental para se manter saudável. Afinal a mídia já cansou de nos mandar este tipo de informação, os médicos falam, os profissionais de educação física recomendam, os nutricionistas reforçam.

Para algumas pessoas praticar um esporte é natural, vem de criança ou já está embutido na rotina há muito tempo. Estas pessoas são aquelas que não conseguem viver sem se mexer. Chega a dar gosto de ver!

Mas e para quem isso não é tão natural assim? E para quem se lamenta todos os dias dizendo pra si mesmo que deveria estar numa academia e ao mesmo tempo tem calafrios só de pensar em ter que suar todos os dias? E para aqueles que vão para academia totalmente contrariados, sabendo que estão cumprindo uma obrigação e contam as horas para poder sair daquele ambiente? Como estas pessoas fazem? Como achar um exercício físico que você goste tanto que passe a contar as horas para praticar ?

Não sei. De verdade. Mas permita-me contar um pouco da minha experiência.

Nunca fui menina atleta, mas sempre gostei de brincadeiras ativas: esconde-esconde, polícia e ladrão, andar de bicicleta ou estar dentro da água. Gostava da sensação de suar. E principalmente da sensação de sentir o corpo cansado e ao mesmo tempo relaxado depois do banho.

Nos esportes coletivos de colégio sempre fui um fracasso. Nunca aprendi a jogar vôlei, meu saque não ultrapassava a rede. Futebol, nem pensar. No handebol tinha medo de levar uma bolada e ficar toda roxa (como fiquei várias vezes). Basquete? É, eu gostava um pouco mais, mas minha estatura não permitia grandes enterradas.

Era sempre a última a ser escolhida nos times. Sempre. Acho que meu professor de educação física em um certo momento ficou com pena e às vezes deixava que optássemos por fazer o esporte coletivo ou por correr num circuito que ele mesmo montava, com cones e outros obstáculos. Passei a correr. Meu professor marcava o tempo e eu corria tentando superar meu próprio tempo. Volta e meia ele mandava eu entrar numa quadra de vôlei ou de handebol, para não esquecer como jogar (como se algum dia eu tivesse aprendido…) mas acho que ele via minha cara de tristeza e na semana seguinte eu voltava para o circuito.

Aos 8 anos entrei para o taekwondo. Fiz durante um ano. Eu gostava, de verdade! Mas a academia fechou e eu parei.

Aos 9 tinha crises de asma bem fortes e meu pediatra pediu que minha mãe me matriculasse em uma aula de natação. Este seria meu tratamento. Me lembro como se fosse hoje das primeiras aulas. Meu fôlego era de um senhor de 90 anos. Aos 11 tive minha última crise de asma. Nunca usei broncodilatador (aquela bombinha, sabe?). Este homem sabia das coisas. Eu amava nadar, ali embaixo da água me transportava para um mundo só meu, fugia da realidade e ao mesmo tempo colocava minha cabeça em ordem. Eu gostava da sensação de ouvir o som abafado debaixo da água. Continuei na natação até os 15 anos. Até que senti necessidade de parar. Tinham se passado 6 anos praticando o mesmo esporte e eu queria coisas diferentes.

Fiquei um tempo sem fazer nada. Me assumi sedentária. Não queria fazer nada. Mas isso logo passou. Tentei dançar: foi um horror! Aulas de ginastica (body pump, body jump e coisas afins): também não deu muito certo. Tive a mesma sensação de quando eu estava na quadra. Não conseguia acompanhar o ritmo da turma, me sentia perdida. Essa coisa de coordenação motora nunca foi meu forte. Fiz musculação durante alguns anos, entre indas e vindas, mas não tinha tesão. O que eu mais gostava na academia era correr na esteira. O resto achava entediante. Vi que não era para mim. Neste meio tempo fazia algumas caminhadas mas nada muito sistemático.

Até aos 27 anos, numa sessão de acupuntura, o profissional que me atendia disse uma coisa que eu nunca havia pensado antes:

Júlia, você precisa de esporte de explosão. Você precisa extravasar! Tens muita energia aí dentro e isso tem que sair! Vai fazer uma luta ou corre. 

Obedeci. Fui experimentado vários esportes que pudessem me trazer esta sensação. Fiz muay thai durante um tempo, passei pela Ashtanga, uma modalidade de yoga com movimentos bem fortes e comecei a correr aos pouquinhos.  Uau! Fluiu. Uma delicia.

E foi aí que eu entendi que tipo de esporte funcionava para mim. Eu não me encaixava nos coletivos. Gostava de fazer as coisas no meu ritmo. Porque no coletivo você tem que acompanhar o ritmo do time ou do parceiro e como eu não conseguia, isso me angustiava. Eu deixava de prestar atenção em mim para tentar seguir o ritmo do outro. E saia tudo errado. Pelo menos para mim.

Primeiro aprendizado: Definitivamente eu sou dos esporte individuais. 

E ele tinha razão, eu gostava da sensação de ter explosão. Quem me conhece superficialmente sempre comenta que me pareço calma. Isso não é verdade, mesmo. Minha cabeça é frenética, pipoca mil coisas, tenho um ideia atrás da outra e em alguns momentos isso me deixa muito ansiosa e estressada. E é aí que o esporte entra. Quando fazia luta ou hoje quando corro, minha cabeça para, os pensamentos silenciam. Toda a minha atenção vai para o meu corpo, para meus pulmões. É quase uma meditação, consigo desligar do mundo. Depois vem o cansaço e a calmaria. Felicidade.

Segundo aprendizado:  O sentimento que me motiva a fazer um exercício é a sensação de esvaziar. Esvaziar a mente. É como se as minhas preocupações, ansiedade, medos, problemas saíssem de mim junto com meu suor. Juro que quando me olho suada no espelho eu penso:  “Saiu tudo de ruim que tinha aqui dentro”. Parece loucura, mas é verdade. E só consigo sentir este esvaziamento quando faço esportes de explosão.

E você? Já parou pra pensar que tipo de sentimento você quer ter com o esporte?

Se para mim quero esvaziar, para outra pessoa pode ser outra coisa completamente diferente: se sentir leve, livre, sensual, poderosa….

Eu continuo sem saber como fazer as pessoas passarem a gostar de fazer esportes mas quando me perguntam sobre isso digo: Primeiro você tem que se conhecer. Pense no sentimento (o que você quer sentir durante e depois do exercício?). Depois experimente o máximo de possibilidades que tiver disponível. Consulte profissionais de educação física, explique o que você quer sentir e peça que eles te ajudem a encontrar a sua “praia”.  A maioria das academias tem aulas experimentais gratuitas. Existem também os clubes de corrida, treinamentos funcionais, aulas de circo e de yoga ao ar livre. Vá circulando por elas até você sentir que encontrou a sua turma ou quem sabe você perceba que a sua turma é você mesma (assim como eu). Não tente se enquadrar num esporte que não tem nada a ver com você ou que não traz nenhum prazer para sua vida. Já estamos cheios de obrigações que não podemos escapar, não faça com que o esporte seja mais uma destas obrigações chatas.

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Comments (1)

Manssur
21 de setembro de 2017 Reply

Excelente texto! Parabéns!

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